Let it snow, let it snow, let it snow…
January 20, 2011
Não. Eu não morri, e nem tampouco estava internado, sequestrado, encarcerado, ou sem internet. O motivo do abandono do meu querido blog foi puramente falta de tempo, inspiração e interesse. Em meio a vida social, afazeres domésticos e obrigações no trabalho, acabei deixando de escrever por aqui. Mas agora que o momento de se despedir da Irlanda está próximo, percebi que logo não serei mais um forasteiro e terei que me despedir do blog também. Por isso aproveitei pra ressucitar o “Forasteiro na Irlanda” enquanto há tempo. E este post da retomada será dedicado ao melhor consolo para o frio que tem feito neste inverno: a neve!
A neve que, por sinal, também foi uma compensação por passar o Natal longe da família. Pra um maranhense que nunca tinha passado frio na vida, ter uma noite natalina igual à dos filmes é algo pra ficar na recordação. O engraçado é ver a reação das pessoas que descobrem que eu nunca tinha visto neve antes. ”Are you serious?” é a pergunta mais frequente. E então eu tenho que explicar que eu moro em São Luís (daí eu me divirto tentando fazê-los falar a palavra “são”), perto da linha do equador, em outras palavras, onde eu moro é tão quente quanto o inferno. Aliás, agora eu já posso dizer que o inferno também pode ser frio. Depois que peguei -10 graus por aqui descobri que o inverno não é lá muito agradável. Minhas mãos viraram duas pedras de gelo e o meu nariz quase caiu do rosto.
Dizem que esse é um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos na Irlanda. Por aqui não neva com muita frequência, em compensação a chuva e o vento fazem sempre questão de marcar presença quebrando todo e qualquer guarda-chuva que você comprar. Entretanto, esse ano o São Pedro irlandês resolveu trocar a chuva pela neve, uma decisão muito sábia. Por vários motivos, a neve é muito melhor que a chuva. Primeiro, porque você não se molha, basta bater um pouco o casaco pra ficar limpo. Segundo porque o vento de chuva aqui dói na alma de tão frio que é. Terceiro porque todo mundo vira criança de novo quando começa a nevar.
Foi incrível a primeira neve de verdade desse inverno. Era uma noite de sexta-feira e todo mundo estava batento ponto nos pubs de Dublin. Eu, com os amigos na festa de despedida da minha querida Carla Carniel (saudades). De repente, vejo a Caicai coberta de neve chamando a gente pra fora da boate. Foi então que eu vi tudo branquinho e os flocos gigantescos caindo do céu. Como eu disse, não há quem não vire criança de novo. Foi impagável ver todo mundo saindo dos pubs pra fazer guerras e bonecos de neve. O centro da cidade virou um parque de diversões de uma hora pra outra! A Grafton Street, um campo de batalha com bolas de neve voando por todos os lados. Na minha vizinhança, várias pessoas esculpiam bonecos aqui e ali. E eu também, ao chegar em casa, fiz um boneco bem na porta. Infelizmente, os nackers malditos destruíram minha obra de arte durante a noite sem que eu tivesse tirado uma foto.
Depois que a poeira, ou melhor, que a neve baixou, a empolgação das pessoas passou. Com o tempo, a neve foi derretendo e as pessoas descuidadas escorregando na rua e quebrando suas pernas. Isso porque os irlandeses não estão preparados pra lidar com esse tipo de fenômeno metereológico, já que não é nada comum aqui. O que me faz pensar que as mudanças climáticas são uma realidade e que o mundo deve estar se acabando… Digressões aparte, valeu a pena ficar na Irlanda durante o inverno. 2010, o melhor ano da minha vida até agora, foi fechado com chave de ouro. A neve é linda!
Forasteiro e fora da lei!
July 27, 2010
Antes que voce pense que eu sai do Brasil pra me tornar um bandido na Irlanda, tenha calma! Nao e nada disso. Eu cometi uma infracao, sim, mas nao foi nada tao grave. De fato, nao era nem a minha intencao fazer o que eu fiz, mas no final das contas eu acabei pagando uma multa. Nao sem muito reclamar e tentar me justificar, e claro.
Para aqueles que nao moram em Dublin entenderem, eu tenho que explicar desde o principio. Comecando pelo funcionamento do transporte publico da capital irlandesa. Pra quem vem de Sao Luis, como eu, o sistema daqui e bem eficiente. Mas nao e nada dificil encontrar um irlandes reclamando. Atraso e lacunas no servico de onibus sao assuntos recorrentes. Mas alem do servico do Dublin Bus, tambem tem o trem Dart e o Luas, uma especie de bonde que corta varias partes da cidade. E e pra esse ultimo que eu vou voltar a atencao, porque foi nele que o meu incidente aconteceu.
A vantagem do Luas e que ele e rapido e rigorosamente pontual. Os passageiros tem a liberdade de comprar o ticket pelas maquinas disponiveis em todas as estacoes. As paradas sao completamente abertas e nao existem cobradores, catracas, nada. A unica forma que eles usam pra evitar calotes e’ mandar fiscais checarem se todo mundo esta com os tickets em maos. Se voce for pego sem uma passagem valida para o trecho onde voce esta viajando, paga uma multa. Mas a fiscalizacao e feita em locais e horarios aleatorios, o que faz muita gente andar de Luas sem pagar nada.
Eu, que nunca fui muito simpatizante do jeitinho brasileiro, ando quase todo dia de Luas pra ir pro trabalho e sou careta: sempre compro minha passagem semanalmente. Acontece que o preco dos tickets variam de acordo com a distancia que voce percorre. Eu sempre viajo da Central 1 ate a ulima parada da central 2. Mas na verdade a parada mais proxima do shopping onde eu trabalho e a primeira da Central 3. Dia desses, eu acabei me distraindo e fui pegar o Luas na estacao mais proxima. Sem lembrar que meu ticket era valido a partir da proxima parada, entrei no bonde junto com os fiscais que pediram logo minha passagem. Ai a merda aconteceu. Por causa de uma parada errada, levei a minha primeira multa.
O que me deixou com raiva, entretanto, nao foi nem o fato de a fiscalizacao ter sido rigorosa comigo. Eu fiquei injuriado porque conheco muita gente que foi pega sem ao menos ter comprado o ticket e o maximo que aconteceu foi eles terem sido expulsos do bonde. Se e pra ser rigido com um passageiro, tem que ser rigido com todos, oras! O que eu fiz depois disso foi mandar um e-mail pra central de atendimento ao consumidor tentando cancelar a multa, afinal de contas eu so estava a uma parada de distancia da estacao correta. Pedido negado. La fui eu pagar a maldita multa…
Fui trouxa. E como diz uma amiga minha, ‘trouxa tem mais e que tomar no c… mesmo’. Por bastante tempo eu vou ficar pensando no que eu poderia ter feito com os 45 euros que eu tive de desembolsar. Enquanto isso, eu vou continuar comprando meus tickets semanais e muita gente vai continuar andando de Luas de graca. Life’s unfair…
PS: Apesar de a resposta ser obvia, nao vou deixar de perguntar a quem quiser responder. E se esse sistema de fiscalizacao fosse implementado no Brasil?
Oxegen 2010
July 11, 2010
Depois de um mes sem internet, semanas com o computador quebrado e uns dias de pura preguica, so mesmo um acontecimento tao incrivel quanto o Oxegen pra me fazer criar coragem pra escrever de novo no blog. Agora e noite de domingo e neste exato momento eu ainda estou curtindo a ressaca do maior festival de musica da Irlanda e um dos maiores da Europa. O evento dura o fim de semana inteiro e varias pessoas acampam no lugar pra nao perder nada. Mas eu, que nao tenho muito dinheiro e nao posso me dar ao luxo de faltar muito no trabalho, so pude ir em um dia.
O melhor da festa e esperar por ela
Pra medir o tamanho da expectativa que eu criei em volta desse sabado, imagine um cara que nunca tinha ido a um show internacional que de repente se ve de ingresso na mao pra um festival enorme com varias bandas que ele gosta de ouvir. Desde o inicio da semana passada eu contei os dias pra viajar pra Punchestown, lugar onde a loucura toda acontece. Chegada a hora de pegar o onibus, alguem me diz que a arena de shows tinha virado uma poca de lama, porque choveu muito no dia anterior (e ainda choveria muito mais durante o sabado). Tudo bem. La fui eu comprar galochas pra nao ficar com lama ate os joelhos e parti decidido pro onibus, afinal de contas ninguem deixa de fazer nada nesse pais por causa do tradicional clima frio e chuvoso.
A viagem
Com um sorriso de orelha a orelha, viajei num onibus insano cheio de gente tao ansiosa quanto eu. Com uma garrafa de cidra na mochila e um copinho improvisado na mao, sai de Dublin bebendo e jogando conversa fora. O trajeto que deveria durar uma hora acabou sendo feito em quase duas horas, porque o motorista parecia nao conhecer muito bem o caminho ou porque ele so queria que nos, pobres mortais com sede de musica, chegassemos atrasados. E chegamos. Nada menos que uma hora de meia depois de abertos os portoes. Felizmente as principais atracoes so comecavam mais tarde.
Punchestown, cidade da lama
Finalmente em Punchestown, a cidade criada especialmente pro Oxegen todo ano, descobri que comprar as galochas foi a ideia do seculo. Praticamente todo mundo tinha, e os poucos que nao usavam uma tinham que andar com barro ate as canelas. Guerra de lama e pessoas sujas ate o ultimo fio de cabelo brotavam de todos os lados. Ate eu ensaiei uma pequena guerra com Bia, minha conterranea e companheira de festival. Pra mim, o lamaceiro nao era problema algum, era mais uma diversao. Ate porque choveu torrencialmente o dia INTEIRO, entao a agua ‘limpava’ a sujeira. Resumindo, passei o dia todo ora todo sujo de lama, ora todo molhado de chuva.
Os melhores momentos
Em festivais como o Oxegen, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo e voce fica sem saber o que ver primeiro. Especialmente no sabado, dia que eu escolhi justamente porque tinha as bandas mais legais. Os melhores momentos do meu dia foram dois shows.
Um deles foi Florence and the Machine, uma cantora britanica que anda fazendo muito sucesso por aqui. Ao vivo, ela e de uma simpatia impressionante. As musicas, cheias de percussao e harpa, conseguiram prender minha atencao ao palco o tempo inteiro. Quando ela cantou ‘Dog days’ todo mundo foi ao delirio. Pulei e cantei um monte.
A outra performance marcante foi a do Kasabian. Eu so conhecia duas musicas da banda, mas eu me diverti ate com as que eu nunca tinha ouvido antes. O vocalista e daqueles que gostam de ver o publico pegar fogo. ‘Fire’, por falar nisso, foi a musica mais incrivel do show.
Fora os meus dois momentos preferidos, ainda gostei muito do show do Gossip. Deveria ter sido o melhor show, se tudo acontecesse conforme minhas expectativas. A Betty Ditto e simplesmente foda. A mulher tem uma energia inexplicavel no palco. O problema foi tecnico, o som do baixo ficou mais alto que um paredao de reggae em Sao Luis. Mas a performance da banda e fora de serie. ‘Heavy Cross’ foi o climax do show.
No final do dia, eu ja tava molhado, enlameado, exausto e com os pes doendo, mas ainda faltava ver as ultimas atracoes. Muse e Black Eyed Peas em palcos diferentes e ao mesmo tempo. Muita gente ficou dividida sem saber o que ver. Eu ja tinha decidido ver o Muse, mas acabei assistindo ao comeco do show do Black Eyed Peas. So pra confirmar minha impressao de que eles nao funcionam bem ao vivo, parece artificial demais pro meu gosto. O Muse, por outro lado, foi muito bom. O problema e que, no meu estado de cansaco, eu nao conseguia mais aproveitar nada. Apesar disso, gostei do que vi. Boa musica com bons efeitos de iluminacao. MAS, era hora de voltar pra casa.
De volta pra vida real
Destuido. Esse foi o estado em que eu peguei o onibus pra voltar pra casa em Dublin. Sujo de lama, com os pes doendo, mal conseguindo andar, com sono e cansado. Mas feliz por ter ido ao festival mesmo com o tempo ruim. Tive o domingo inteiro pra relaxar e me recuperar do dia anterior. Agora, limpo e descansado, a unica coisa que eu lamento e nao poder ter ido tambem hoje no domingo. Mas ja e tarde, e eu ainda tenho que trabalhar amanha bem cedo. Porque nem todo dia e dia de Oxegen e chegou a hora de voltar a rotina…
Hora de arrumar as malas (de novo?)
May 30, 2010
No Brasil, na Irlanda e em qualquer lugar do mundo, o lugar onde voce mora e uma das preocupacoes mais importantes do seu cotidiano. Mesmo quando se embarca numa experiencia como a minha, em que se tem o desejo de passar o maximo de tempo possivel conhecendo o que as ruas tem a oferecer, chega a hora em que bate o cansaco. E o momento de retornar pra casa, nem que seja so pra dormir, e sagrado. Eu, que sempre morei na mesma casa no Brasil, ja tive esse momento sagrado em tres lugares diferentes em pouco mais de dois meses morando em Dublin. E ainda tem mais: essa semana me mudo pra uma quarta casa! Sim, meus amigos. O nomadismo tem feito parte da minha vida na Irlanda.
Antes que os curiosos cheguem a conclusao de que tantas mudancas aconteceram por causa de alguma confusao ou trauma, eu explico. Nao foi nenhum problema que me fez trocar de acomodacao tantas vezes. Foram as circunstancias que me guiaram por aqui, e eu acredito que o caminho que eu fiz valeu a pena. Ate agora, morei em tres lugares que me proporcionaram vivenciar ambientes competamente diferentes um do outro. Da tranquilidade do suburbio a loucura do centro da cidade. Do ambiente de classe media ao gueto que nao se ve nos pacotes turisticos.
A primeira mudanca ja era esperada. Como muitos de voces devem saber, ficar numa hostfamily durante um ano inteiro sai caro demais. Por isso, muita gente paga duas ou quatro semanas e depois arranja um flat ou casa pra dividir o aluguel com outras pessoas. Foi o que eu fiz. Morei durante o primeiro mes numa casa de familia localizada em Portmarnock, bem no litoral de Dublin. O bairro e daqueles suburbios tranquilos onde as pessoas geralmente planejam criar os filhos e morar com a familia naquelas casinhas todas iguais. Eu adorava mergulhar na rotina de pegar o onibus todo dia, passando pelos campos de Portmarnock, onde as pessoas fazem cooper, passeiam com seus cachorros e levam as criancas pra jogar comida pros patos (protegidos pela lei ambiental).
Quando meu tempo de acomodacao em Portmarnock ja estava se esgotando, eu me vi na obrigacao de procurar um apartamento pra morar. Durante mais ou menos uma semana e meia sai visitando varios lugares que ofereciam vaga. O impasse aconteceu quando gostei de um apartamento que so ia abrir uma vaga duas semanas depois do dia da minha mudanca. Cansado de procurar acomodacao, acabei fechando esse mesmo. Isso porque uma amiga brasileira me quebrou um galho e cedeu o sofa do apartamento onde ela mora por duas semanas. Foi quando eu conheci o gueto de Dublin, porque o flat ficava em Summerhill, rua onde habitam mais nackers por metro quadrado na cidade. Pra quem nao sabe, Dublin tambem tem muita gente pobre, familias desestruturadas e violencia urbana, isso nao e exclusividade de paises subdesenvolvidos. Durante o tempo que morei ali, nunca me aconteceu nada demais. Era mais ou menos como no Brasil, eu so nao podia andar despreocupado. Nao e um lugar que eu escolheria pra viver, mas foi muito bom observar o ‘dark side’ daqui.
Por fim, chegou a hora de mudar pro apartamento que eu havia escolhido. Tambem localizado no centro, embora nao numa regiao perigosa, o flat fica numa rua que guarda muita historia. Em Windmill Lane fica o estudio onde o U2 gravou as primeiras musicas. O lugar nao faz mais gravacoes, mas o predio ainda esta de pe, recebendo a visita dos turistas e fas da banda. A rua, onde os muros sao cobertos de graffiti e mensagens, transmite uma energia muito boa. Passando por ela, e impossivel nao pensar em quanta historia se fez ali. Alem dos membros do U2, Sinead O Connor e outros artistas irlandeses tambem gravaram em Windmill Lane Studios, numa epoca de efervecencia cultural muito grande aqui em Dublin.
Como ficou claro, nao tenho problema algum com meu atual apartamento, muito pelo contrario. O que me motivou a mudar mais uma vez foi a vontade de ter mais privacidade, ja que no momento tenho que dividir um quarto. Nao sei se voces concordam, mas mesmo que seu companheiro de quarto seja a pessoa mais tranquila do mundo, nada se compara a um lugar so seu. Pensando nisso, quando eu e mais 3 amigos achamos uma casa com 4 quartos num lugar bom pra morar, decidimos fechar na mesma hora. Acordo fechado, parte do deposito feito, preparativos em curso, la vou eu de novo partir pra uma nova casa. Minha nova mudanca vai ser logo no comeco dessa semana. So preciso terminar esse post, dar o ‘Enter’ e comecar a arrumar as malas. DE NOVO. Wish me luck!
Dois meses em ‘Fast-Foward’
May 23, 2010
Dizem que o tempo passa mais rapido ou mais lento dependendo da intensidade do que se vive. Acredito que eu falo por mim e pela maioria dos intercambistas se disser que, vivendo temporariamente em um outro pais, os dias passam como num piscar de olhos. Dois meses ja se foram eu ainda tenho a sensacao de que cheguei ao aeroporto de Dublin ha duas semanas. Talvez por isso que so agora tomei folego e coragem para comecar a escrever meu blog de viagem.
Ainda lembro o dia que eu acordei no susto porque ja era meu ultimo dia na hostfamily. Um mes ja tinha se passado. Um dos mais curtos de toda a minha vida. As recordacoes desse periodo ja me vem meio fragmentadas, algumas sem ordem cronologica. Cheguei numa tarde de domingo das maes na Irlanda, acolhido em uma casa do suburbio. A hostmother era uma ‘lovely lady’ que mostrou meu quarto e me preparou um cha bem quente pra amenizar o frio. Algumas horas depois, eu ja me via perdido em Portmarnock Beach sem saber o caminho de volta pra casa. Antes do desespero e do frio ao qual eu nao estava acostumado tomarem conta, eis que aparece Peter, um taxista que deu exemplo de hospitalidade irlandesa e me levou de volta pra casa de graca. Isso mesmo. De graca. Desconfiei no comeco, mas logo depois aceitei a ajuda.
Pra nao esquecer o outro lado da moeda, tambem me vem a memoria uma mostra da xenofobia irlandesa. Certa vez eu estava andando bem tranquilo na rua, quando esbarrei em uma nacker (irlandeses marginalizados que andam pelo centro em busca de confusao). Seria algo bem comum esbarrar em alguem na rua. Nao fosse a bebum comecar a gritar injuriada: ‘Watch where you’re walking, fuckin black nigga’. Ali eu cai na real e percebi o quanto a gente tem essa tendencia de idealizar as pessoas. Os irlandeses, por exemplo, nao se resumem aquela imagem dos simpaticos dancarinos de ‘doodle-doo songs’, com um copo de Guiness na mao prontos pra trocar uma ideia com voce. No fim das contas, idiotas existem em todo lugar do mundo.
Nao posso deixar de citar a lembranca do St Patrick’s day, a maior festa do ano na terra dos leprechauns. Eu havia chegado aqui ha poucos dias, e muita expectativa envolvia a parada na O’Connel Street, de que todos falavam com muita empolgacao. Minha impressao do desfile? Decepcionante. A principio pensei que era uma impressao so minha, porque, como bom brasileiro que sou, a referencia que eu tinha era o nosso carnaval. Mas, conversando com japoneses, coreanos, alemaes, franceses e mexicanos, vi que era um sentimento meio que geral dos outros estrangeiros. AO MENOS a festa foi salva pelo pos-parada no Temple Bar, onde havia gente comemorando em todos os pubs e ate no meio das ruas. Muito louco!
Das memorias do mes que passei na minha hostfamily, ainda tem a primeira vez que vi a neve. Ta certo que nao era bem neve, era ‘sleet’ – uma mistura de neve com chuva. Mas para quem vem de uma cidade como Sao Luis, onde ja se considera ‘friozinho’ quando a temperatura atinge 25 graus – se e que atinge -, isso ja e um acontecimento. Alias, nos meus primeiros dias em solo irlandes o clima estranho nao foi uma das minhas melhores recordacoes. Mas eu achava tudo que via tao interessante que ate esquecia do frio, da chuva e do vento. Resultado: uma bela de uma gripe. Nada mais.
Foram tantas experiencias diferentes, engracadas ou ate desesperadoras que eu poderia passar o dia escrevendo aqui. Falaria da procura por uma casa pra morar, das duas semanas que passei dormindo no sofa de uma amiga, da busca pelo emprego, da perda do passaporte, e por ai vai! Contudo, antes que eu comece a entediar voces, meus amigos, paro por aqui na promessa de continuar postando relatos de minha viagem. Ate porque so se passaram dois dos nove meses – ou um ano, ou mais, nunca se sabe - que planejo ficar por aqui. E essa experiencia ainda promete render muito assunto pra este blog. Aguardem!





